1.2.10

Da [in]sanidade

No sorriso desdentado da menina que é sombra e nada
ao mesmo tempo, em um tempo onde tudo é vácuo.
No teu sussurro cálido de palavras sem sentido.
Na chuva esganiçada que leva os ratos para longe
da nossa paz banhada a plástico e metal.

Pelas miudezas desta torpe sanidade,
valsa livre nossa loucura.



27.1.10

No ermo de mim

A chuva é tão arenosa do outro lado do ermo de mim,
que de alguém à fitar-me mal vejo a cor dos olhos.
"O que se busca afinal onde está alojado o vazio meu?".
Lembro-me de ter pensado algo assim, no breve instante
em que a brasa devorava silenciosa meu cigarro pútrido.
Em seguida, nada além da fumaça densa saída dos meus
lábios em direção aos olhos descoloridos, como um
beijo perdido no escuro, tal qual pungente despedida.

8.12.09

Rubachov hoje diz por mim


“Devia-se pagar também por atos que tinham sido certos? Haveria outra medida além da medida da razão? Recairia porventura sobre o homem que tinha razão a mais pesada divida quando medido por esta outra dimensão?Seria acaso sua dívida contada em dobro – por não saberem os outros o que faziam?” [Arthur Koestler - O Zero e o Infinito]

...

3.12.09

Do que faz valer-se

Meio ao formigueiro de asfixiantes gravatas, o menino trajava camiseta esgarçada, jeans desbotado, e um solado tênue sentido na aspereza dos pedregulhos deprendidos em calçadas. O tictac desenfreado do relógio de mil horas em uma, lembrava vorazmente aos gravatas que nada podia perder-se. Mas o menino que não ganhava nem para emudecer o estomago, passou cinco minutos sorrindo à acrobacia das nuvens.

1.12.09

Do que perdeu-se

Quatro sonhos despertos em estrelas foscas
cujo brilho nunca foi conhecido.
Talvez fossem três ou nenhum.
Mal vejo o céu do mundo e de meus malogros
por estas grades imundas.
Minhas retinas outrora azuis em ideais,
tonaram-se negras nos copeques de outrem.
Dos farrapos com que mal me cubro,
minha vergonha escorre peralta pelo tecido
esburacado.
E nestas mãos lânguidas e amareladas,
onde um dia quis carregar o mundo,
restou-me um mal-me-quer anoitecido.

25.11.09

O sorrir e o girassol

Dos resquícios de uma manhã qualquer
Brotou no cimento um girassol,
E um sorrir esverdeou-se vívido,
Em arvoredos opacos.

Onde havia desnome no peito meu,
O sorrir aconchegou-se dando notas,
Acordes e uma melodia que ecoava
Surda no silêncio doudo de mim.

Nos trejeitos insossos das rusgas
Guardadas em minha face gélida,
O cálido girassol repousou-se manso
Garatujeando amarelos onde reinava
Único e solitário, o cinza.

____
 
Para Fay e Adriano, meus amigos queridos e aniversariantes, que pintam sempre sorrisos e girassóis em mim!
 

20.11.09

...

Havia um buraco e eu.
Os transeuntes pisoteavam o vácuo,
não caíam, não viam.
Eu era o buraco.
O restante de mim foi-se nos solados
de pés desconhecidos.

18.11.09

O caracol e a cidade

Um caracol despontou nos arvoredos da cidade.
Incólume meio a bueiros, prédios e asfalto.
Vermelho, raro, no ermo de ser-se.
Inábil em lidar com a podridão do cinza,
O fétido de bizonhas baratas cutucando seu casco.
Pensou, no intangível pensamento de caracol,
Que nada era além de armadura servida de lentidão,
arranhando o piche em silêncio.
Mas por onde arrastava-se o cinza ganhava um colorido
ainda não inventado.
O caracol não olhava para trás, seguia no pejo de
sua existência.
E toda existência tornava-se canto em suas cores.

16.11.09

O sal do mar ou o mar do sal de mim

O sal do mar de mim
Cresta sorrisos em jardins ensolarados.
Dança no bater das asas de dourados besouros.
Sussurra segredos entre dedos gastos e foscos.
Desenha margaridas no escuro chafurdado.

O mar do sal de mim
Sobe a maré conforme meus anseios.
Beija meus labios como suaves andorinhas.
Entoa árias sob a janela minha.
Mente que é facil solidão sem espelhos.

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11.11.09

De um breve viajar

O ônibus fedia a salgadinho barato. Balançava vagarosamente no propósito de deixar todos vertiginosos e enjoados. Pairava no ar uma sensação como se entre o tic e o tac do relógio sem corda houvesse um abismo mudo.

Desconhecidas cabeças inerentes à lentidão dançavam, de lá, para cá, para lá, para lugar algum.Nas janelas, respingos da chuva de ontem, lamacenta, tal qual o hoje que amanheceu tímido indeciso entre o cinza e o laranja róseo. Inapto à escolha.

Nos rostos de cabeças dançantes havia expressão alguma. Podia-se ouvir o murmúrio de sentidos e sentimentos abarrotando-se uns contra os outros nos pontos onde não se parava. Até que próximo ao abismo, parou. Alguém cambaleando no reaprender a colocar um pé após o outro, desceu.

E quando pensou que o melhor era deixar-se cair, avistou uma orquídea arroxeando o barro.


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[Foto por: Daisy Serena]